África

Primeiro o espanto, os dias de esfusiante tontura de sol e terra e bebedeira de cor e luz.
Depois o desmaio, as crianças, tantas, tão perdidas, com olhar de gente grande, desconfiado, sofrido.
A seguir as mesmas crianças, que riem e pulam e são crianças outra vez. As que nos fazem sorrir e acreditar, que velam os nossos sonhos, que enchem os dias de música, de conversas sábias, de carinhos e histórias de encantar.
Era uma vez, era uma vez…explicaram-me eles, os meninos, que todas as histórias começam assim e nunca mencionaram o convencional fim “e foram felizes para sempre”. Se calhar, porque aqui conta o hoje e agora, e por isso o futuro se mede só com o dia seguinte, “para sempre é muito tempo”. Tanto quanto aquele que achavam ser um ano, o ano que disse ficar cá, o tempo que lhes causou tanto espanto e fez o Chico dizer à tia Sara numa das suas conversas: “Tia Paula vai ficar muito tempo, para sempre”. Para sempre não, meu anjo, “há-de vir”…
De tudo o que me prende a esta terra magnífica, a este continente de sonho por realizar, são as crianças que me fazem chorar de saudade enquanto escrevo o meu último texto antes do regresso. As pequeninas, de Pemba e Ocua, as mais crescidas: as que mal conheci em Mocuba mas lembro bem, as dos bairros em Quelimane, minha segunda cidade no mundo, e, claro, os meninos da Casa Esperança, meus companheiros de casa durante estes meses, meus amigos, meus despertador…
Chegou a minha hora e não é fácil a despedida. Ninguém disse que seria e não o esperei de outra forma. Mas há muitos graus de dificuldade, muitas pedras no caminho, a incapacidade de transpor o que realmente se sente, a felicidade misturada com tristeza, o sorriso a esconder lágrimas teimosas, mais teimosas do que eu.
Nova paragem para respirar. Pensar em tudo que ganhei este ano, tudo o que me deram, tudo o que soube receber: paisagens de sonho, amigos dos quatro cantos, culturas diferentes, cheiros e sabores diferentes e amor, muito amor destas crianças que não sabem fingir – sabem mentir como todas as crianças ou não o seriam! – mas não fingem aquilo que gostam ou não gostam. Sempre as crianças, sempre.
Aqui termina o que sinto: nesta terra fica o meu amor, a minha paixão pela vida e a teimosia em acreditar. Aprendi muito e continuo a não saber grande coisa. Estou cansada e continuo a levantar os braços e cerrar os punhos…e a ter vontade de viver.
Falo agora do que interessa: vale a pena?
Da varanda da casa de uma amiga, Carolina, em Maputo vejo três mamãs a passar. Três capulanas, três lenços, três rostos marcados pela dor. A do meio segue amparada pelas outras, não sei porque sofre. Os outros dois rostos vestem a resignação africana.
Estava perdida em pensamentos quando as vi: Maputo é cidade grande, a minha África não é aqui. Afinal…também é.
Às vezes desanimei e deixei o egoísmo falar. Eu, eu, eu…tinha saudades de casa, a bicicleta cansa, arranjar peixe não é divertido. Nessas alturas, apareciam os amigos e, como diz a Tia Sara, “às vezes, somos princesas em África!”. Muitos amigos e prontos a ajudar em tudo. A todos, nos dois continentes, que sabem bem quem são, muito obrigada.
E depois, como não poderia deixar de ser, as crianças. E por elas, vale tudo a pena. Por isso quando tenho dúvidas, fecho os olhos e vejo o percurso nos bairros com o Eva e os sorrisos à chegada a cada casa. Fecho os olhos e ouço as vozes no pátio pela manhã, e sei os nomes de cada uma; as músicas que trago no coração foram eles que as puseram aqui.
Tenho dois pacotinhos de açúcar na minha carteira com aquelas frases que lemos para diversão enquanto saboreamos o café, o último antes do meu regresso, à mesa com o Tiago.
“Truth always expresses itself with the greatest simplicity.”—Pierre Schmidt
“Never accept failure, no matter how often it visits you. Keep on going. Never give up. Never.”—Dr. Michael Smurfit
Mais fácil dizer do que fazer. Mas se não o tentamos, que nos resta?
Primeiro estranha-se, depois entranha-se. É assim a minha África. Nunca adeus, sempre até breve.
Paula Coelho

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Primeiro o espanto, os dias de esfusiante tontura de sol e terra e bebedeira de cor e luz.

Depois o desmaio, as crianças, tantas, tão perdidas, com olhar de gente grande, desconfiado, sofrido.

A seguir as mesmas crianças, que riem e pulam e são crianças outra vez. As que nos fazem sorrir e acreditar, que velam os nossos sonhos, que enchem os dias de música, de conversas sábias, de carinhos e histórias de encantar.

Era uma vez, era uma vez…explicaram-me eles, os meninos, que todas as histórias começam assim e nunca mencionaram o convencional fim “e foram felizes para sempre”. Se calhar, porque aqui conta o hoje e agora, e por isso o futuro se mede só com o dia seguinte, “para sempre é muito tempo”. Tanto quanto aquele que achavam ser um ano, o ano que disse ficar cá, o tempo que lhes causou tanto espanto e fez o Chico dizer à tia Sara numa das suas conversas: “Tia Paula vai ficar muito tempo, para sempre”. Para sempre não, meu anjo, “há-de vir”…

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De tudo o que me prende a esta terra magnífica, a este continente de sonho por realizar, são as crianças que me fazem chorar de saudade enquanto escrevo o meu último texto antes do regresso. As pequeninas, de Pemba e Ocua, as mais crescidas: as que mal conheci em Mocuba mas lembro bem, as dos bairros em Quelimane, minha segunda cidade no mundo, e, claro, os meninos da Casa Esperança, meus companheiros de casa durante estes meses, meus amigos, meus despertador…

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Chegou a minha hora e não é fácil a despedida. Ninguém disse que seria e não o esperei de outra forma. Mas há muitos graus de dificuldade, muitas pedras no caminho, a incapacidade de transpor o que realmente se sente, a felicidade misturada com tristeza, o sorriso a esconder lágrimas teimosas, mais teimosas do que eu.

Nova paragem para respirar. Pensar em tudo que ganhei este ano, tudo o que me deram, tudo o que soube receber: paisagens de sonho, amigos dos quatro cantos, culturas diferentes, cheiros e sabores diferentes e amor, muito amor destas crianças que não sabem fingir – sabem mentir como todas as crianças ou não o seriam! – mas não fingem aquilo que gostam ou não gostam. Sempre as crianças, sempre.

Aqui termina o que sinto: nesta terra fica o meu amor, a minha paixão pela vida e a teimosia em acreditar. Aprendi muito e continuo a não saber grande coisa. Estou cansada e continuo a levantar os braços e cerrar os punhos…e a ter vontade de viver.

Falo agora do que interessa: vale a pena?

Da varanda da casa de uma amiga, Carolina, em Maputo vejo três mamãs a passar. Três capulanas, três lenços, três rostos marcados pela dor. A do meio segue amparada pelas outras, não sei porque sofre. Os outros dois rostos vestem a resignação africana.

Estava perdida em pensamentos quando as vi: Maputo é cidade grande, a minha África não é aqui. Afinal…também é.

Às vezes desanimei e deixei o egoísmo falar. Eu, eu, eu…tinha saudades de casa, a bicicleta cansa, arranjar peixe não é divertido. Nessas alturas, apareciam os amigos e, como diz a Tia Sara, “às vezes, somos princesas em África!”. Muitos amigos e prontos a ajudar em tudo. A todos, nos dois continentes, que sabem bem quem são, muito obrigada.

E depois, como não poderia deixar de ser, as crianças. E por elas, vale tudo a pena. Por isso quando tenho dúvidas, fecho os olhos e vejo o percurso nos bairros com o Eva e os sorrisos à chegada a cada casa. Fecho os olhos e ouço as vozes no pátio pela manhã, e sei os nomes de cada uma; as músicas que trago no coração foram eles que as puseram aqui.

Tenho dois pacotinhos de açúcar na minha carteira com aquelas frases que lemos para diversão enquanto saboreamos o café, o último antes do meu regresso, à mesa com o Tiago.

“Truth always expresses itself with the greatest simplicity.”—Pierre Schmidt

“Never accept failure, no matter how often it visits you. Keep on going. Never give up. Never.”—Dr. Michael Smurfit

Mais fácil dizer do que fazer. Mas se não o tentamos, que nos resta?

Primeiro estranha-se, depois entranha-se. É assim a minha África. Nunca adeus, sempre até breve.

Paula Coelho

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Terra dos embondeiros, Escolas dos Pequeninos

Terra dos embondeiros, Escolas dos Pequeninos
E eis-nos em Pemba, conhecida pelas magníficas praias e o bom tempo.
Pois é, mais uma viagem de machibombo até Nampula, mais uma noite em pensão com banho a balde, mais uma etapa até Pemba, numa paisagem diferente da Zambézia que se tornou a “nossa” província: agora somos apresentadas como as da Zambézia!
Estamos em Cabo Delgado, norte de Moçambique, e sim, roam-se de inveja, as praias são mesmo como aparecem na internet!
Trocámos os coqueiros pelos embondeiros, a chuva pelo sol, os meninos mais crescidos pelos mais pequeninos. São tão pequeninos!!!
É muito engraçado chegar às escolinhas e ter um coro bem ensaiado a dizer “Bom dia, visitas!, bom dia, tio Diabo!” Depois ouvimos as músicas (que nos lembram a tia Lali…) e depois…trabalho. Claro que há sempre tempo para um colo e um mimo destes meninos tão pequeninos que nos encantam só com sorrisos e mãozinhas que se estendem mal lançamos um olhar.
Entre visitas a escolas e conversas com mamãs e monitoras para sabermos tudo dos pequeninos, começa a surgir a vontade de reter aquilo que vamos levar na mala: os sons, os cheiros, as cores de África.
Vento nas folhas de coqueiro que lembram a nossa casa, na Zambézia, som misturado com risos e choro de meninos e vassouras a varrer o pátio e correrias com o Odileka. Vento nas casuarinas a lembrar Zalala, a praia sem fim, mas desta vez em Murrebué, a ver as mulheres que pescam com redes coloridas e riem e falam em Macua…”não entendo, mamã, sou machuabo!” e “até manguana” agora é “pacamelo”.
Vento nos vidros do chapa ou do machibombo, na volta do pequeno paraíso que é Ocua, enquanto se faz um silêncio de sono e resignação do tempo que vai passando por nós devagar, mas sempre a contar nos ponteiros…poeira vermelha no caminho.
Ocua pode realmente ser chamada “o descanso do guerreiro”. Começa com a recepção calorosa das leigas da Boa Nova: Mila, Conceição e Carmo. Estas senhoras com “S” grande são verdadeiras anfitriãs: recebem com simpatia, com pão fresco feito no forno do quintal onde dorme Chico, a gata com nome ao contrário, com conversa agradável e acordar com salto da cama: “Meninas, estão a perder um nascer do sol fantástico!” Ah, se a Conceição soubesse do meu acordar difícil…mas até me portei bem!
E ela tem razão. O nascer e o pôr-do-sol em Ocua são espectáculos a não perder, todos os dias diferentes com nuvens e cores de assombro pela beleza que se nos é dada assim, de graça…
Som dos pássaros de Ocua, das cantigas das crianças, dos morcegos que mais uma vez nos levam a Quelimane e aos fins de tarde em que se pode ver estes voadores a atravessar o Bons Sinais para Inhassunge. Sons dos cães que não nos deixam dormir (estamos a dormir no quarto do dono, por isso a Lassie e o Pastor ladram na nossa janela), dos batuques que tocam na aldeia, das mamãs que passam com os jarricans e baldes à cabeça para ir ao poço. Há sempre alguém a passar no pátio da casa “Bom dia, bom dia!”. E finalmente sou compreendida porque bom dia é qualquer hora do dia, então!
Sons das crianças que fogem da Mila quando tentam roubar as mangas que são tão pequenas ainda que quase não se vêem! Som da noite profunda quando finalmente sossega o monstro gerador e se faz escuro na varanda dos sonhos. Mil estrelas e recordações do tempo dos pirilampos que está para vir. A Via Láctea grande, imensa.
De volta Pemba, cheiros das casas, mandioca, terra queimada, laranja e tangerina, tomate e galinhas e tudo o mais que se compra da janela do chapa.
De volta às escolinhas, aulas de ginástica improvisadas, costas desfeitas do tio Tiago que vai carregando um e outro enquanto esperamos as mamãs, canções e mais canções, olhos abertos de espanto e análise profunda de tudo: as minhas unhas pintadas são motivo de intriga!
De manhã, depois de escolinhas e para acordar, café no Sr. Armando. A Sami já sabe, o Tiago quer logo dois, o da Sara é cheio, o P. Luís gosta de pregar (!!); tudo isto enquanto o Sr. Armando, ora com os papéis na mão, ora a resmungar com a impressora, lá vai contando as novidades da terra ou uma história de que se lembra de outros tempos da sua Porto Amélia. E há sempre alguém que se lembra que uma francesinha logo é que era…
E depois do trabalho, às vezes, a nossa amiga Ester que tem sempre uma paciência de voluntária para com os voluntários, passa na igreja a levar a malta tomar café no Dolphin, onde a Isabel tem sempre um sorriso e alguma coisa a dizer. “Eu gosto é de festas!” Assim é que é, amiga, boa disposição! A Ester vai ouvindo as nossas lamúrias com o seu ar tranquilo e diz sempre que não nos entende…mas entende porque como ela encontrei pouca gente na vida, aqui ou noutro lugar qualquer. Um dia rendo-me, Ester, e venho viver para a Terra do Nunca contigo. Até lá…ficas tu com o Peter Pan! E ficas tu com o sol a pôr-se na praia do Wimbi, enquanto os meninos vão passando a vender chocolates, sempre os mesmos, a rir do cansaço e da vida que levam.
Também o Mounir apareceu por cá: um amigo de Quelimane que agora está em Pemba, mas sempre a correr. É sempre um querido: telefona a perguntar se estamos bem, arranjou-me médico para as emergências, quer sempre saber se precisamos de alguma coisa. E não há má disposição quando se está com este libanês. Melhor do que tu, só o teu pai!
A Tinha, nome da gata que nos acorda na casa dos Padres da Boa Nova, vem acordar-me dos devaneios da escrita e entra a reclamar na sala da internet…que funciona quando quer para desespero de muitos…hora de acordar, de viver os últimos dias em Pemba, já perto da viagem longa para casa, primeiro a casa de Quelimane, depois a casa da mamã, em Portugal.
Até breve para uns e beijos de despedida para outros.
Paula e Sara
Pemba


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E eis-nos em Pemba, conhecida pelas magníficas praias e o bom tempo.

Pois é, mais uma viagem de machibombo até Nampula, mais uma noite em pensão com banho a balde, mais uma etapa até Pemba, numa paisagem diferente da Zambézia que se tornou a “nossa” província: agora somos apresentadas como as da Zambézia!

Estamos em Cabo Delgado, norte de Moçambique, e sim, roam-se de inveja, as praias são mesmo como aparecem na internet!

Trocámos os coqueiros pelos embondeiros, a chuva pelo sol, os meninos mais crescidos pelos mais pequeninos. São tão pequeninos!!!

É muito engraçado chegar às escolinhas e ter um coro bem ensaiado a dizer “Bom dia, visitas!, bom dia, tio Diabo!” Depois ouvimos as músicas (que nos lembram a tia Lali…) e depois…trabalho. Claro que há sempre tempo para um colo e um mimo destes meninos tão pequeninos que nos encantam só com sorrisos e mãozinhas que se estendem mal lançamos um olhar.

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Entre visitas a escolas e conversas com mamãs e monitoras para sabermos tudo dos pequeninos, começa a surgir a vontade de reter aquilo que vamos levar na mala: os sons, os cheiros, as cores de África.

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Vento nas folhas de coqueiro que lembram a nossa casa, na Zambézia, som misturado com risos e choro de meninos e vassouras a varrer o pátio e correrias com o Odileka. Vento nas casuarinas a lembrar Zalala, a praia sem fim, mas desta vez em Murrebué, a ver as mulheres que pescam com redes coloridas e riem e falam em Macua…”não entendo, mamã, sou machuabo!” e “até manguana” agora é “pacamelo”.

Vento nos vidros do chapa ou do machibombo, na volta do pequeno paraíso que é Ocua, enquanto se faz um silêncio de sono e resignação do tempo que vai passando por nós devagar, mas sempre a contar nos ponteiros…poeira vermelha no caminho.

Ocua pode realmente ser chamada “o descanso do guerreiro”. Começa com a recepção calorosa das leigas da Boa Nova: Mila, Conceição e Carmo. Estas senhoras com “S” grande são verdadeiras anfitriãs: recebem com simpatia, com pão fresco feito no forno do quintal onde dorme Chico, a gata com nome ao contrário, com conversa agradável e acordar com salto da cama: “Meninas, estão a perder um nascer do sol fantástico!” Ah, se a Conceição soubesse do meu acordar difícil…mas até me portei bem!

E ela tem razão. O nascer e o pôr-do-sol em Ocua são espectáculos a não perder, todos os dias diferentes com nuvens e cores de assombro pela beleza que se nos é dada assim, de graça…

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Som dos pássaros de Ocua, das cantigas das crianças, dos morcegos que mais uma vez nos levam a Quelimane e aos fins de tarde em que se pode ver estes voadores a atravessar o Bons Sinais para Inhassunge. Sons dos cães que não nos deixam dormir (estamos a dormir no quarto do dono, por isso a Lassie e o Pastor ladram na nossa janela), dos batuques que tocam na aldeia, das mamãs que passam com os jarricans e baldes à cabeça para ir ao poço. Há sempre alguém a passar no pátio da casa “Bom dia, bom dia!”. E finalmente sou compreendida porque bom dia é qualquer hora do dia, então!

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Sons das crianças que fogem da Mila quando tentam roubar as mangas que são tão pequenas ainda que quase não se vêem! Som da noite profunda quando finalmente sossega o monstro gerador e se faz escuro na varanda dos sonhos. Mil estrelas e recordações do tempo dos pirilampos que está para vir. A Via Láctea grande, imensa.

De volta Pemba, cheiros das casas, mandioca, terra queimada, laranja e tangerina, tomate e galinhas e tudo o mais que se compra da janela do chapa.

De volta às escolinhas, aulas de ginástica improvisadas, costas desfeitas do tio Tiago que vai carregando um e outro enquanto esperamos as mamãs, canções e mais canções, olhos abertos de espanto e análise profunda de tudo: as minhas unhas pintadas são motivo de intriga!

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De manhã, depois de escolinhas e para acordar, café no Sr. Armando. A Sami já sabe, o Tiago quer logo dois, o da Sara é cheio, o P. Luís gosta de pregar (!!); tudo isto enquanto o Sr. Armando, ora com os papéis na mão, ora a resmungar com a impressora, lá vai contando as novidades da terra ou uma história de que se lembra de outros tempos da sua Porto Amélia. E há sempre alguém que se lembra que uma francesinha logo é que era…

E depois do trabalho, às vezes, a nossa amiga Ester que tem sempre uma paciência de voluntária para com os voluntários, passa na igreja a levar a malta tomar café no Dolphin, onde a Isabel tem sempre um sorriso e alguma coisa a dizer. “Eu gosto é de festas!” Assim é que é, amiga, boa disposição! A Ester vai ouvindo as nossas lamúrias com o seu ar tranquilo e diz sempre que não nos entende…mas entende porque como ela encontrei pouca gente na vida, aqui ou noutro lugar qualquer. Um dia rendo-me, Ester, e venho viver para a Terra do Nunca contigo. Até lá…ficas tu com o Peter Pan! E ficas tu com o sol a pôr-se na praia do Wimbi, enquanto os meninos vão passando a vender chocolates, sempre os mesmos, a rir do cansaço e da vida que levam.

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Também o Mounir apareceu por cá: um amigo de Quelimane que agora está em Pemba, mas sempre a correr. É sempre um querido: telefona a perguntar se estamos bem, arranjou-me médico para as emergências, quer sempre saber se precisamos de alguma coisa. E não há má disposição quando se está com este libanês. Melhor do que tu, só o teu pai!

A Tinha, nome da gata que nos acorda na casa dos Padres da Boa Nova, vem acordar-me dos devaneios da escrita e entra a reclamar na sala da internet…que funciona quando quer para desespero de muitos…hora de acordar, de viver os últimos dias em Pemba, já perto da viagem longa para casa, primeiro a casa de Quelimane, depois a casa da mamã, em Portugal.

Até breve para uns e beijos de despedida para outros.

Paula e Sara (Pemba)

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Parabéns a você!

Parabéns a você!
Mais uma prenda em formato de texto: pois é, tia Sarita, um aniversário em África. Antes foi o mano Latifo, depois será o Tiago, a seguir a Tia Paula…curioso, tanto aniversário em tão pouco tempo.
Um pequeno, grande pormenor: o Camões não escreveu repleto mas sim composto, no terceiro verso da primeira quadra do soneto que mencionei no meu texto anterior. E sim, estou realmente cansada e com sol a mais na cabeça, mas isso não é desculpa…sorry!
É cada vez mais complicado ignorar as saudades de casa e cada vez mais preocupantes as saudades que já temos de África, Moçambique, Zambézia, Quelimane…mas sabíamos que seria assim. Agora é só seguir em frente e aproveitar os últimos tempos neste continente.
Um pequeno, grande recado: Sibi, minha linda sobrinha, és a maior! Se não fossem as mulheres desta família, não sei como seria o futuro dos Coelho. Obrigada pelos comentários e até breve, princesa.
E agora, um pequeno, grande pormenor que faz toda a diferença em qualquer parte do mundo: amigos. Sei que já falei em alguns aqui mas nunca é demais lembrar que, sem amizade, de pouco valeria a nossa estada aqui no planeta.
Andréa: novamente esta senhora, que nos mostra todos os dias que o valor de um gesto, uma atenção, o valor da boa vontade descomprometida e sincera. Ela sabe que a amizade que criamos neste canto do mundo é já parte das nossas vidas. Obrigada por tudo, amiga.
Pedro: quem disse que Portugal e Espanha tinham relações difíceis enganou-se. Vizinhos na Europa, amigos em África. Inquestionável a boa mesa em sua casa e a qualidade do anfitrião. Melhor ainda: o imenso coração e a ajuda nesta tarefa de fazer o possível por melhorar a vida das nossas crianças e dar-lhe a alegria que precisam para serem realmente “crianças” num mundo complicado de adultos. Os meninos da Casa Esperança vão ter equipamento de futebol. Obrigada, Pedrito!
Rui, D. Eugénia e Sr. Pires: uns tugas à maneira com temperamento do norte, carago! Sempre que é preciso, eles estão lá. E, pequeno segredo, de vez em quando o Rui deixa cair a sua capa de durão e mostra o imenso coração que tem. Olha, nem te agradeço! Quando à D. Eugénia e ao Sr. Pires, eles sabem o porto de abrigo que são para nós em Quelimane. Obrigada, D. Eugénia pelo bolo da Sara e obrigada Sr. Pires pelas conversas e gargalhadas (no meio de muito que aprendemos). Só para lembrar. No Xeque-Mate, o rui trata das bebidas, a D. Eugénia da paparoca e o Sr. Pires, quando não anda na estrada a tratar de arranjar carne para o talho, trata da contabilidade!
Gani: eterno amigo, em qualquer situação. Sempre animado e disposto para o que der e vier. Só lhe falta escrever o blog que prometeu há muitos meses. Por isso não escrevo mais nada até pagares a tua dívida. Estás a dever essa!
Dina e Pedro: mais uma vez, Portugal no coração. A Dina é a nossa melhor RP em África, toda a família e amigos já sabe do nosso trabalho e muitos já ajudam a que efectivamente aconteça. A sua casa é muitas vezes o net point da zona e foi preciosa a ajuda nas fotos e vídeos para o dia do tutor. Obrigada aos dois pelo carinho, pela ajuda e pela companhia. Ah, sim, e pelo Nespresso!
Há muitos mais amigos para falar e muita mais gente a quem agradecer, mas ficará para a próxima, senão não acaba este texto.
E depois desta longa lista de agradecimentos, resta lembrar todos os amigos aí em Portugal, mas isso era uma lista muito complicada para escrever aqui. Bom S. João a toda a gente, comam muitas sardinhas e caldo verde, se possível na festa da ataca, e já falta pouco para beijos e abraços e conversas de até mais não.
Isto de diários de bordo em final de viagem é ainda mais complicado. Beijos e Abraços
Paula e Sara
Quelimane

Mais uma prenda em formato de texto: pois é, tia Sarita, um aniversário em África. Antes foi o mano Latifo, depois será o Tiago, a seguir a Tia Paula…curioso, tanto aniversário em tão pouco tempo.

Um pequeno, grande pormenor: o Camões não escreveu repleto mas sim composto, no terceiro verso da primeira quadra do soneto que mencionei no meu texto anterior. E sim, estou realmente cansada e com sol a mais na cabeça, mas isso não é desculpa…sorry!

É cada vez mais complicado ignorar as saudades de casa e cada vez mais preocupantes as saudades que já temos de África, Moçambique, Zambézia, Quelimane…mas sabíamos que seria assim. Agora é só seguir em frente e aproveitar os últimos tempos neste continente.

Um pequeno, grande recado: Sibi, minha linda sobrinha, és a maior! Se não fossem as mulheres desta família, não sei como seria o futuro dos Coelho. Obrigada pelos comentários e até breve, princesa.

E agora, um pequeno, grande pormenor que faz toda a diferença em qualquer parte do mundo: amigos. Sei que já falei em alguns aqui mas nunca é demais lembrar que, sem amizade, de pouco valeria a nossa estada aqui no planeta.

Andréa: novamente esta senhora, que nos mostra todos os dias que o valor de um gesto, uma atenção, o valor da boa vontade descomprometida e sincera. Ela sabe que a amizade que criamos neste canto do mundo é já parte das nossas vidas. Obrigada por tudo, amiga.

Pedro: quem disse que Portugal e Espanha tinham relações difíceis enganou-se. Vizinhos na Europa, amigos em África. Inquestionável a boa mesa em sua casa e a qualidade do anfitrião. Melhor ainda: o imenso coração e a ajuda nesta tarefa de fazer o possível por melhorar a vida das nossas crianças e dar-lhe a alegria que precisam para serem realmente “crianças” num mundo complicado de adultos. Os meninos da Casa Esperança vão ter equipamento de futebol. Obrigada, Pedrito!

Pedro

Pedro

Rui, D. Eugénia e Sr. Pires: uns tugas à maneira com temperamento do norte, carago! Sempre que é preciso, eles estão lá. E, pequeno segredo, de vez em quando o Rui deixa cair a sua capa de durão e mostra o imenso coração que tem. Olha, nem te agradeço! Quando à D. Eugénia e ao Sr. Pires, eles sabem o porto de abrigo que são para nós em Quelimane. Obrigada, D. Eugénia pelo bolo da Sara e obrigada Sr. Pires pelas conversas e gargalhadas (no meio de muito que aprendemos). Só para lembrar. No Xeque-Mate, o rui trata das bebidas, a D. Eugénia da paparoca e o Sr. Pires, quando não anda na estrada a tratar de arranjar carne para o talho, trata da contabilidade!

Rui, D.Eugénia e Sr. Pires

Rui, D.Eugénia e Sr. Pires

Gani: eterno amigo, em qualquer situação. Sempre animado e disposto para o que der e vier. Só lhe falta escrever o blog que prometeu há muitos meses. Por isso não escrevo mais nada até pagares a tua dívida. Estás a dever essa!

Tiago e Gani

Tiago e Gani

Dina e Pedro: mais uma vez, Portugal no coração. A Dina é a nossa melhor RP em África, toda a família e amigos já sabe do nosso trabalho e muitos já ajudam a que efectivamente aconteça. A sua casa é muitas vezes o net point da zona e foi preciosa a ajuda nas fotos e vídeos para o dia do tutor. Obrigada aos dois pelo carinho, pela ajuda e pela companhia. Ah, sim, e pelo Nespresso!

Dina e Pedro

Dina e Pedro

Há muitos mais amigos para falar e muita mais gente a quem agradecer, mas ficará para a próxima, senão não acaba este texto.

E depois desta longa lista de agradecimentos, resta lembrar todos os amigos aí em Portugal, mas isso era uma lista muito complicada para escrever aqui. Bom S. João a toda a gente, comam muitas sardinhas e caldo verde, se possível na festa da ataca, e já falta pouco para beijos e abraços e conversas de até mais não.

Isto de diários de bordo em final de viagem é ainda mais complicado. Beijos e Abraços

Paula e Sara

Quelimane

“Mudam-se os tempos…

“Mudam-se os tempos…
…muda-se a vontade,
Muda-se o ser, muda-se a confiança.
Todo o mundo está repleto de mudança, 
Tomando sempre novas qualidades.”
Tenho certeza que toda a gente o sabe de cor, tão bem como eu, mas apeteceu-me deixar aqui a quadra que inicia este soneto camoniano. Tantas vezes o lemos em páginas de manuais escolares e, tal como a letra de uma qualquer canção, este teima em bater-me à porta de vez e põe-me a pensar.
Se mudamos nestes meses cá? Como não? Estranho seria o contrário. 
E o tempo? O tempo passou como no resto do mundo, às vezes devagar (ou parecendo assim), outras tão depressa que até assusta só de olhar para o calendário. 
E tempo “tempo” arrefeceu, finalmente. Pela primeira vez em muitos meses tive aquela sensação de frio que me dá o Outono em Portugal…primeiras chuvas (aqui últimas), primeiras noites de cobertor, primeiro casaco, chinelos no armário, sapatilhas no pé…pois é, também há frio aqui. Bem, friozinho…
A vida continua, os trabalhos também. A tia Sara esfalfou-se nas visitas aos externos, percorreu novamente os bairros, apanhou sol e chuva, lama e pó. Chegava a casa sempre cansada mas feliz: efeito bicicleta pelos bairros, das conversas com as mamãs e crianças e lanho para acalmar os sentidos.
A Tia Paula foi a seguinte a curtir bicicleta, a visitar novamente as escolas, a rever “velhos amigos” como a directora da Escola do Cololo, que ficou muito contente porque eu aprendi a lição e uso camisola que não mostra a barriga porque, diz ela, homem não pode ver – aí está o segredo da mulher! Ainda acabo a usar capulana, pelo andar da coisa! 
Também fizemos estrada até Mocuba, a cidade onde “todos os caminhos se cruzam e Moçambique se abraça”, com o amigo P. Estêvão, para visitar um orfanato que está a ser construído e saber da possibilidade de ajudar as crianças. 
Na semana passada tivemos os externos e as mamãs aqui na Casa Esperança, para que se conheçam melhor, para conhecermos também nós melhor estas crianças e as suas famílias, para pedirmos às crianças que venham fazer as cartas para enviarmos depois aos tutores em Portugal.
Sabemos do Dia do Tutor e queríamos, de alguma forma, mostrar o que a ataca vai fazendo por cá, em Quelimane, e também agradecer, com as imagens que conseguimos enviar, o muito que têm feito por estas crianças e o tanto que ainda vão ajudar.
Aqui na Casa Esperança o futebol tem animado os fins-de-semana. Empatamos com a Casa de Hóspedes e ganhamos com a Casa Família! Somos os maiores!!!
Vamos tentar arranjar um uniforme à maneira para a equipa e continuar com os jogos, em coordenação com a Direcção da Juventude e Desporto aqui na cidade.
E como todo o mundo está repleto de mudança, assalta-me já o coração a mudança da partida em breve, mas tranquilizo-me pensando que esse mesmo mundo toma sempre novas qualidades. E assim será.
De volta aos meninos da casa Esperança, e na secção já conhecida, hoje falo do Tito e do Admiro. 
São os dois calmos e sossegados e os dois têm olho grande!!! (esta última observação é dos mais pequenos da casa).
O Admiro é realmente reservado e não é de muita conversa. A tia Sara gosta de meter-se com ele e perguntar das damas, e aí abre-se-lhe o imenso sorriso que tem e ouve-se algumas desculpas…”Nada, tia! Não tenho dama!” Não gosta de cortar o cabelo (é da idade) e é aplicado no estudo. 
O Tito é também calmo mas muito senhor do seu nariz. No outro dia ficou doente e foi ao médico. No final, quando o médico disse que podia sair respondeu “Não posso”. Até eu, que estava ao lado, fiquei intrigada. De seguida, devolve a receita ao médico e diz: “O meu nome está errado, chamo-me Tito Luciano.” Pois é! E estava mesmo. Ninguém passa a perna a este senhor, fiquem sabendo. Não gosta muito de fotografias, acho que pensa que prejudica o seu estilo low profile!
Enfim, já me custa um bocadinho falar destes meninos…e eis que chega o Odileka e me dá uma merecida lambidela: “Ei, ainda cá estás, ainda há muito a fazer, vamos lá mexer!” 
Bolas, quem me dera umas cerejas agora!!!!
E depois deste pequeno desabafo de saudade, beijos a todos e já que não vou comer este ano e não: comam muitas cerejas por mim.
Paula e Sara
Queli…muda-se a vontade,

…muda-se a vontade,
Muda-se o ser, muda-se a confiança.
Todo o mundo está repleto de mudança, 
Tomando sempre novas qualidades.”

Tenho certeza que toda a gente o sabe de cor, tão bem como eu, mas apeteceu-me deixar aqui a quadra que inicia este soneto camoniano. Tantas vezes o lemos em páginas de manuais escolares e, tal como a letra de uma qualquer canção, este teima em bater-me à porta de vez e põe-me a pensar.

Se mudamos nestes meses cá? Como não? Estranho seria o contrário. 

E o tempo? O tempo passou como no resto do mundo, às vezes devagar (ou parecendo assim), outras tão depressa que até assusta só de olhar para o calendário. 

E tempo “tempo” arrefeceu, finalmente. Pela primeira vez em muitos meses tive aquela sensação de frio que me dá o Outono em Portugal…primeiras chuvas (aqui últimas), primeiras noites de cobertor, primeiro casaco, chinelos no armário, sapatilhas no pé…pois é, também há frio aqui. Bem, friozinho…

A vida continua, os trabalhos também. A tia Sara esfalfou-se nas visitas aos externos, percorreu novamente os bairros, apanhou sol e chuva, lama e pó. Chegava a casa sempre cansada mas feliz: efeito bicicleta pelos bairros, das conversas com as mamãs e crianças e lanho para acalmar os sentidos.

bairro

A Tia Paula foi a seguinte a curtir bicicleta, a visitar novamente as escolas, a rever “velhos amigos” como a directora da Escola do Cololo, que ficou muito contente porque eu aprendi a lição e uso camisola que não mostra a barriga porque, diz ela, homem não pode ver – aí está o segredo da mulher! Ainda acabo a usar capulana, pelo andar da coisa! 

Na escola

Na escola

Exterior da escola

Exterior da escola

Também fizemos estrada até Mocuba, a cidade onde “todos os caminhos se cruzam e Moçambique se abraça”, com o amigo P. Estêvão, para visitar um orfanato que está a ser construído e saber da possibilidade de ajudar as crianças. 

Mocuba

Mocuba

Mocuba

Na semana passada tivemos os externos e as mamãs aqui na Casa Esperança, para que se conheçam melhor, para conhecermos também nós melhor estas crianças e as suas famílias, para pedirmos às crianças que venham fazer as cartas para enviarmos depois aos tutores em Portugal.

Encontro com os externos na Casa Esperança

Encontro com os externos na Casa Esperança

Os externos todos juntos

Os externos todos juntos

Sabemos do Dia do Tutor e queríamos, de alguma forma, mostrar o que a ataca vai fazendo por cá, em Quelimane, e também agradecer, com as imagens que conseguimos enviar, o muito que têm feito por estas crianças e o tanto que ainda vão ajudar.

Aqui na Casa Esperança o futebol tem animado os fins-de-semana. Empatamos com a Casa de Hóspedes e ganhamos com a Casa Família! Somos os maiores!!!

Jogo de futebol

Jogo de futebol

Vamos tentar arranjar um uniforme à maneira para a equipa e continuar com os jogos, em coordenação com a Direcção da Juventude e Desporto aqui na cidade.

E como todo o mundo está repleto de mudança, assalta-me já o coração a mudança da partida em breve, mas tranquilizo-me pensando que esse mesmo mundo toma sempre novas qualidades. E assim será.

De volta aos meninos da casa Esperança, e na secção já conhecida, hoje falo do Tito e do Admiro. 
São os dois calmos e sossegados e os dois têm olho grande!!! (esta última observação é dos mais pequenos da casa).
O Admiro é realmente reservado e não é de muita conversa. A tia Sara gosta de meter-se com ele e perguntar das damas, e aí abre-se-lhe o imenso sorriso que tem e ouve-se algumas desculpas…”Nada, tia! Não tenho dama!” Não gosta de cortar o cabelo (é da idade) e é aplicado no estudo. 
O Tito é também calmo mas muito senhor do seu nariz. No outro dia ficou doente e foi ao médico. No final, quando o médico disse que podia sair respondeu “Não posso”. Até eu, que estava ao lado, fiquei intrigada. De seguida, devolve a receita ao médico e diz: “O meu nome está errado, chamo-me Tito Luciano.” Pois é! E estava mesmo. Ninguém passa a perna a este senhor, fiquem sabendo. Não gosta muito de fotografias, acho que pensa que prejudica o seu estilo low profile!

Admiro e Tito

Admiro e Tito

Enfim, já me custa um bocadinho falar destes meninos…e eis que chega o Odileka e me dá uma merecida lambidela: “Ei, ainda cá estás, ainda há muito a fazer, vamos lá mexer!” 

Bolas, quem me dera umas cerejas agora!!!!

E depois deste pequeno desabafo de saudade, beijos a todos e já que não vou comer este ano e não: comam muitas cerejas por mim.

Paula e Sara

!!ONG!!

 

Com três letrinhas apenas…se faz tanta gente feliz! Somos ONG, minha gente!

Não parece, ou até parece, um facto extraordinário, mas sem dúvida para estas duas voluntárias em Quelimane é. 

A nossa ataca é agora organização não governamental para o desenvolvimento. Maningue nice mesmo. Faz-nos pensar que realmente o trabalho compensa quando é reconhecido e ainda mais quando acontece em tempo record. Faz-nos pensar também que a responsabilidade aumenta com as possibilidades que ser uma organização deste tipo traz. 

E sabemos que não é só aqui que aumenta o ânimo e a vontade de trabalhar: em Portugal deve andar muita gente com um sorriso nos lábios e, sim, um bocadinho “insuflada”!!! Também temos o direito à vaidade de sermos cada vez melhores. Digo eu…

Nós por cá vamos fazer uma grande festa. Até estamos a pensar ir ao mercado e comprar umas capulanas novas para ficar “tchunadas” a rigor, ou então umas calças de ganga novas, as designadas “Chuna baby”, que fazem os miúdos dizer. “Tia, tá chique de doer!”

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Já iniciamos as festividades com animação cultural na cidade: a tia Paula cantou (bem, se encantou são outros tantos…) no Murima, um bar simpático na cidade, que em português se chamaria Coração. Acompanhada pelo músico Camal, iniciou a sua prometedora carreira no meio artístico com uma música do Rui Veloso, aquela que fala de um anel de rubi. 

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Pois, rubis não há, mas temos sempre os anéis casa esperança, feitos e oferecidos pelos nossos meninos. Acreditem que valem bem mais estas missangas do que qualquer jóia preciosa. Mais: para quem nunca foi noiva ou casada, esta é a melhor forma de coleccionar esses objectos e ainda mais oferecidos pelo género masculino! Ah, pois é, agora somos damas concorridas!

E também já pensamos arranjar uns autocolantes para as nossas bicicletas que vão dizer: “Cuidado, Miss ataca – agora ONG! –  ao volante!”. Passamos a explicar: actualmente tem um autocolante da marca que diz Miss Índia…

Vamos também aproveitar para comunicar a todos os amigos a fantástica notícia. Claro que depois teremos que festejar com todos eles: praia com P. Estêvão, praia com a Dina e o Pedro, praia com o Gani, praia com o Iussufo, praia com o Swel, praia…brincadeirinha!!!!!

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Vai ser mais: bairros com o Evaristo, escolas com o Evaristo, confusões a resolver com os putos…enfim, quase o mesmo!

E agora que temos cá o Tiago, podemos sempre contar que vai haver alguém a perguntar: “E camarão, há?”

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Mas não pensem que não trabalha, o senhor em questão. Até já emagreceu (apesar do camarão) de tantas idas à cidade. E também se designou o treinador oficial do Odileka, que já senta! Só que depois que descobriu que o cão não tem medo de barulho de jornal, desanimou…pudera, com o treino que lhe dão os miúdos, que esperava o patrão?

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Regressamos à secção dos nossos putos e cá vão mais dois: o José e o Pedrito. São irmãos e nota-se bem! O Pedrito está sempre atento ao que acontece com o José, mais novo em idade e na casa. E pronto, tal como os outros miúdos, tem dias: dias em que é um doce e dias em que é um diabinho. É muito responsável mas também inventa cada uma… 

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Os outros miúdos costumam gozar e dizer que o Pedrito, mesmo com roupa de “Domingo” tem um ar desgraçado! Digamos que ainda tem que melhorar o seu gosto no pronto-a-vestir!!! É também mestre em baptizar os tios e tias que cá chegam com uns bons baldes de água. Põe um ar sério e comprometido quando se fala com ele e, dada a idade, começa também com as suas histórias de adolescente. Ai, idade complicada, esta.

O José é um menino doce que ainda vivia no bairro quando cheguei cá, já lá vão muitos meses. Começou por vir passar os fins-de-semana à casa esperança e da primeira vez, imaginem, fui eu que o carreguei parte do caminho de bicicleta. Lembro-me que estava cheia de medo, ainda sem prática e sempre aos “Ss”. Perguntei ao José se tinha medo de andar comigo e disse muito seguro, apesar de envergonhado, que não. Percebi aí a vontade que tinha de ficar na casa esperança! E agora está cá connosco, desde Janeiro, e posso dizer (muito feliz) que cada vez mais animado e à vontade com toda a gente. Parece outro, o nosso José!

E pronto, é tudo por agora. Despedimo-nos com saudações cordiais aos nossos colegas de trabalho na ONG magnífica que é a ataca e com beijos cheios de saudade…ai, ai (suspiro da tia Sara) à família e amigos que sofrem perdidamente com a nossa ausência (sim, nalguns casos esta frase é um bocadinho exagerada, especialmente com os irmãos da tia Paula!). 

Até já

Paula e Sara

Voluntárias da ONG ataca em Quelimane!!!!!!!

História de Amor

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Em muitos projectos é normal ouvir-se falar de histórias de sucesso, casos que demonstram bem o que se tenta fazer e, com muita força de vontade, se consegue, umas vezes mais que outras. São essas histórias que ajudam a entender o que se faz e o que o ser humano pode ser, quando quer realmente fazer acontecer.
A mim apetece-me contar antes uma história de amor.
Amor: tão falado, tão desejado, tão desprezado, tão repetido em páginas e páginas de alegrias e sofrimentos. Amor.
Será novamente repetido hoje, aqui. Era uma vez, era uma vez…
Tinha quinze anos quando deixou a casa dos pais. Casou com um homem mais velho, que tinha já dez filhos de mulheres diferentes. Cuidou de todos e a todos tratou como filhos. À pergunta: “Porquê casar tão cedo, mamã?”, a resposta é simples: “Tinha uma vida difícil e marido ajuda e protege”. Lembro os meus quinze anos e os meus sonhos de adolescência. A distância não é só em km…não é só cultural também. Somos as duas mulheres agora, o respeito por esta senhora aumenta todos os dias.
Tem agora quarentas, a nossa mamã. O marido já vai além dos setenta. Com ele teve mais três filhos. Entretanto, a irmã mais velha morreu. Ficou com os sobrinhos, três. Conheço-a porque ajudamos algumas destas crianças que vivem agora consigo através do nosso projecto.
Morreu também a irmã mais nova: ficou com mais crianças. Entretanto, a família do marido acha que é um abuso ter tantas crianças órfãs da família da mamã em casa e por isso deixa-lhe também em casa os filhos de uma irmã do marido que faleceu. Tem agora doze crianças a seu cargo. Uma está num lar em Milange, outra está na Casa Esperança. Quando vão de férias a casa, arranja-se milagrosamente espaço para todos.
O marido, que respeita e trata porque está doente, não tem um temperamento fácil. Disse-me que a ajudou porque permitiu que as crianças vivessem lá em casa. Sei que os manteve a todos na escola sem qualquer ajuda do marido. Sai muito cedo de casa todos os dias e vai trabalhar para a machamba. Ela e muitas outras mamãs. Volta a casa e trata deste batalhão de crianças, do marido doente, da casa…
Queixa-se, sim: a vida não é fácil, falta quase tudo, dorme pouco e mal. Mas não pára. Não esmorece. Não desiste. Quando me visita na casa esperança tem sempre um sorriso e um comentário para as nossas crianças…e sabe que muitos juntos é confusão. Pudera!!!
Quando a visito, oferece-me lanho e fica a conversar. Fala das crianças a seu cargo e há sempre uma aventura ou um carinho a mencionar: “Aquele, para não perder chinelo a brincar, usa nas mãos!!”; “Esse menino é muito carinhoso, nunca zanga…”
Tanto amor assim chega a ser complicado para quem vê. Faz-nos sentir pequeninos no mundo e grandes no coração. Faz-nos querer ser melhores e ter esta força que não sei donde vem, este amor que não tem preço, nem lotação… O amor desta mamã por estas crianças faz-nos calar. E assim me calo e vos deixo a pensar. 

Paula e Sara

Paradise is here!

 É… e não é. Temos reparado que os nossos blogs de vez em quando, assim…de quando em vez, andam a baralhar a população. Pois bem, vamos lá ver se nos entendemos: a vida não é fácil, senhores, e ninguém anda a “pintar” a realidade de outras cores. A verdade verdadeira é que não vamos andar a lamentar-nos do que é difícil, do que corre menos bem (ou até mal) nos nossos textos. Não é essa a intenção.
Mas se querem saber: sim, temos dias difíceis! Quando dizemos está calor, invejam-nos aí desse lado do inverno rigoroso (eu também o faria!); mas calor aqui é muitas vezes sinónimo de inferno. Os que conhecem a tia Paula sabem o quanto gosta de calor e chinelo no pé, por isso percebem que se eu disser que tenho “quase” saudades de um dia frio, um casaco quentinho, um cobertor…é porque a coisa está má!
Tem piada a história da bicicleta e de andar a pé para todo o lado: quando o sol nos queima até à raiz do pensamento e transpiramos até em repouso absoluto, movimento implica sacrifício e muita força de vontade para carregar com o computador até à cidade, para visitar as crianças nos bairros mais distantes, para enterrar os pés na lama (que não sabemos bem o que tem à mistura) porque não há outra forma de nos deslocarmos. E assim é todos os dias.

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Ir às compras aqui é sempre uma animação: as condições dos mercados, o peixe que não podemos mandar”arranjar” enquanto vamos à secção dos “frescos”, a distância que temos que percorrer com as compras no nosso cesto…tira o romance à coisa, não? E sim, usamos leite de coco em tudo, porque já somos zambezianas, mas é preciso parti-lo, ralá-lo, fazer o leite (não vem em pacotinhos com nome de país exótico!). Por falar em pacotes: saibam que o leite aqui não contém “preservativos”. Ah, pois é!

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A Casa Esperança tem muitas crianças, de várias idades…e são todas do sexo masculino! Parece o máximo…e é! Mas acordar e adormecer com gritos e correrias de tanto puto cansa o cérebro de qualquer comum humano. Um mês é novidade, dois meses, três, quatro, cinco…ai!!! Preciso de uns dias de descanso, de silêncio… (acrescentem a isto as milhentas rãs da machamba). E nós vivemos cá, 24 sobre 24, sempre a bulir.
Sim, este blog hoje é o muro das lamentações, por isso continuamos: as diferenças culturais, aquelas que temos que aceitar como “o outro”, também nos fazem repensar a nossa existência. Sabemos que, tradicionalmente, as mulheres tratavam do cultivo dos campos e os homens da caça. Pois, caça agora já há pouca (especialmente em arredores de cidade), mas é preciso comer. Por isso vemos que as mulheres são, muitas vezes, a força que faz mover o agregado familiar na Zambézia. Admitimos que dá vontade de chutar uns traseiros e pô-los a mexer mas nunca o faremos que ninguém nos pediu que cá viéssemos dar lições de moral sobre a organização da sociedade e família em Moçambique. Mas não é fácil, isto da cultura do outro…do respeito.
E mais uma queixa: quando ninguém comenta os nossos textos sentimo-nos ainda mais longe de casa, mais afastadas de tudo o que nos foi familiar até aterrarmos em África. As saudades são um problema quando ficamos mais tristes ou doentitas ou simplesmente cansadas: é que não há mesmo nada que substitua o colo da nossa mãe! Sim, somos as duas sargentos, teimosas, até armadas ao pingarelho de “eu aguento-me”…mas não somos de ferro.
Mais coisas de desgraçadinhas: já chega por hoje, que ainda nos mandam mais cedo embora e isso é que não!!!!

Paula e Evaristo

Paula e Evaristo

Voltamos à habitual conversa dos nossos dias. E têm sido dias bons, apesar de todas as anteriores manifestações de desagrado – queixinhas!!!!

Os miúdos inventam “uma” nova todos os dias: agora enfiam-se nos tanques de roupa e ficam de molho, a seguir andam a imitar o cão e a latir pela casa, depois chamam Irmã Paula e Irmã Sara às tias só porque toda a gente que vem cá a casa o faz e sabem que nos irrita um bocadinho…

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O Chico e Nando lá vão todos bonitinhos para a escola!!!! Sim, os nossos pequeninos estão a crescer…e os crescidos estão cada vez mais “cool” (sendo que o uniforme escolar agora inclui suspensório e gravata). São o grupo da oitava classe: João, Josué, Melo, Lito, félix e o Nelito (mais recente da casa) e devem andar a partir os corações das damas na nova escola…bem, a tentar andam!!!

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E para continuar com os putos: hoje falamos do Josué e do Melo. São os dois bem comportados e responsáveis, os dois “vidrados” em damas, como manda a idade…
O Josué fala sempre nas meninas que vai conhecendo na escola e são todas “amigas”. No ano passado, havia uma Marta, esta semana apresentou a Luísa à Tia Sara…todos temos direito a muitas amigas!!!
O Melo é mais reservado nesta matéria e não conhecemos nomes. Quando lhe perguntamos ri-se e desconversa! Uma vez apanhei-o a falar com uma amiga no portão cá em casa. Ficou tão envergonhado que lhe caiu a manga que comia…

Josué e Melo

Josué e Melo

Adolescência à parte, são os dois muito trabalhadores e muitas vezes exemplo de educação e empenho aqui em casa.
Lembro-me que uma vez me zanguei com o Melo por uma dessas asneiras que vão acontecendo (…). Veio falar comigo mais tarde e desculpar-se por “brincar mal”. É um bom miúdo, mesmo.
O Josué é muito engraçado e está sempre a “gingar”! É uma fonte de boa disposição e foi com ele que fiz umas tantas apostas que me deram direito a banho de lama porque perdi.
Mais uma vez e para não fugir à regra: os sorrisos destes putos…e assim nos vão levando!
Só para terminar e porque não falávamos de alimentação há algum tempo: tubi até é bom e coconorte é uma…maldade para as papilas gustativas! E não digo qual é o quê. Experimentem um dia.
Beijos e abraços a todos. Paula e Sara